terça-feira, 6 de novembro de 2018

TOC

Eu quero organizar
Com essas coisas, assim, Simetricamente justapostas
Toda a ordem da vida que me falta
Todo o caos, que de fora me devora...
Obsessiva e compulsivamente, Meticulosamente
Transtorno todos os meus livros, meus discos, e muito mais
As coisas de que não me livro...
Os meus poucos pertences, decadentes
Que a ninguém tristemente pertenço...
Indexando os meus muitos remédios
E tédios
Pondo algum método em minha loucura
Uma luz, nessa trilha escura
Planejando, cuidadosamente, (Tal qual um crime)
Meus atribulados dias
(Que ironia!)
Minhas manhãs inúteis, Minhas noites insones e Minhas tardes vazias...
Prendam me se forem capazes
Ou simplesmente, me joguem as chaves
Desses muros e grades
Os quais com esmero, metodicamente,
Eu mesmo ergui
A minha própria prisão..

Anônimo

Numa tarde qualquer
Ele morreu num lugar esquecido
Anônimo...
Nem o seu abundante sangue
A lavar a cena fúnebre
Esboçou qualquer assinatura.
Então, já era noite escura
E pendia, ao seu lado, sua navalha...
A vida não vale nada
Ou qualquer coisa que o valha...
Chega de sofrer.
O que eu simplesmente preciso
É de um afiado bisturi,
Dois cortes, precisos,
E um definitivo ponto final...
Vida, franca e honestamente
Nós fracassamos, Rotundamente...
Não coloques tantos senoes na minha tragédia.
Pois se choras pelo sangue que me jorra, não te espanta
A Morte, mais afeita a esses dramas
Friamente o estanca.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Ninguém é uma ilha?

De tudo o que me restou
Me deixem só
Com meu silêncio
Dele não abro mão...
Ele é tudo o que sou
(O pouco que ainda sou)
Tudo o que vive e morre
Nessa cela escura em que vegeto
Sob o passar impiedoso do tempo.
Eu poderia tentar falar,
Ou, quem sabe, sorrir
Uma vez mais?
Não.
Passar de novo pelo escrutínio do "outro"?
Engraçadas são as pessoas
Quando te conhecem:
Vão descobrindo logo tuas fraquezas, teus defeitos
E fazem delas uma vergasta
Com a qual, no momento mais imprevisto e oportuno,
Te açoitam sem a menor piedade.
Chega. Estou farto de ser amado do avesso.
Esse desconcerto que trago no peito,
Minhas esquisitices de há tanto
Que já trato por normais...
Não. Não mais.
Não me sentirei outra vez culpado
Pelo que sou.
Deixo perdidos para sempre
Aquele olhar azul, esperançoso...
Aquele sorriso, querendo despontar, que ainda trago comigo
(Embora escondido)
Pisoteados pelos porcos, caidos na lama,
Junto às pérolas que algum desavisado ao chão jogou...
Desisto.
Por essas todas me guardo, me calo
Me quedo só, com meu silêncio
Ele que é tudo que sou
(O pouco que ainda sou).
Uma ilha esquecida
Cercada de dor e de nada, por todos os lados
Mas, por isso mesmo, preservada dos invasores,
Dos falsos, dos chacais,
Privada dos falsos amores...

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Tóxico

Como eu quisera um toque...
Mas não encostes
Não te aproximes.
Meu sangue é turvo
Minha pele contamina
Eu escorro veneno
Pelos meus lábios
Meus afetos são radioativos.
Nunca mais um toque
Nunca mais
O calor de outro corpo...
É tal como estar um tanto morto,
E vagar pela cidade
Em meio a vivas e brilhantes belezas
Que nunca, nem por breve instante
Poderão ser vagamente minhas...
O que me resta?
Fico com a frieza congelada de fotos nuas e cruas
E o gozo rápido e insatisfeito dos vídeos sujos
Uma mera descarga é o destino do meu erotismo
Eros estanque esvaído
Despachado descarga abaixo...

sábado, 22 de setembro de 2018

Mudo

Se não me mudo
Morro.
As coisas estão difíceis,
(Impossíveis)
Por aqui.
Se não mudo
Choro
Não tem mais razão pra esse sentir.
Se não falo
Explodo
Preciso da verdade pra existir.
Se esqueço isso tudo
(Se me esqueço)
Sigo a sofrer, a chorar, a morrer,
E me quedo
Mudo...

terça-feira, 31 de julho de 2018

Veneno

Pinga lento o veneno
Da tristeza
Como um soro em minhas veias
Circula, passeia
Pelos meus sistemas
Lento me amargura
A essa altura
Não sei quando me mata
Como se esse estado de quase-morte
Não fosse antes mais azar
Que sorte.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Talvez

Talvez, num dia a toa
O meu coração me leve
Me leve em uma paixão
Me leve por um ideal
Ou simplesmente por mal
Mal-subito
Porque, amigos,
O coração pode tudo.

A Tristeza

Rainha dos meus dias
Pareces te impor,
Agora, mais e mais
Nesse gélido e umido frio
Que, aqui em Porto, faz...
Na ausência dos amigos
Sequer dos conhecidos
Na falta do que é simplesmente humano...
Silêncio soberano.
Hoje, num só dia, envelheci alguns anos
E o sangue que me corre nas veias
É o mesmo que oxida, me fenece e decompõe.
Lentamente. Lamentavelmente.
Tempo...
O fim
É só uma questão de tempo
Enquanto isso, eu sigo,
Atônito e mudo
Tentando achar qualquer sentido
Nisso tudo
E, se sentido existe
Ora, no fim
É conformar-se em ser triste
E é o prêmio
Que sobrou pra mim...

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Sumidouro

Não quero mais nada
Apenas viver, sem deixar pistas
Mero viajante
Espectador anônimo...
Quero correr e apagar meus rastros
Ver como o fogo da terra arrasada
Lembra um quê do fulgor dos astros
Permitam-me ser um misantropo
Inclusive nas redes sociais
E ter a minha lista de bloqueados
Maior que a soma dos amigos, conhecidos e quetais...
Quero sumir num sumidouro.
Fazer do meu viver
O exercício diário do meu esquecimento
Já que não pude ser nada
Mergulho em meu nada...
Nado na amnésia da eternidade
E fico assim
Um som distante de uma história
Que quase ninguém vai lembrar
No fim.
Já não resta talento, requinte ou apuro
É só sofrimento puro.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Trocas

Depois desse Natal
Percebo que estou quebrado
Haverá uma seção de trocas amanhã?