domingo, 3 de fevereiro de 2019

Anjo caído

Olha
Passou mais um dia
Com muita sorte
Passará mais um outra vez
Não há feliz viver
Sem perspectiva de futuro
No horizonte, hoje, é tudo tão obscuro
Preciso urgentemente de saída
Pra essa prisão que chamam de vida.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Nada me cura

Sofro de uma grave doença
Nada me cura
Ando por trilha incerta
E escura...
Quem dera o sol dos vinte anos
Voltasse a brilhar
Eu faria tudo, tão diferente...
Mas hoje o diferente sou eu
O que não se encaixa
Aquele que acha
Já não ter mais lugar por aqui.

Sortilégio

Os búzios previram assim
A vinda de um último grande amor
Já que os penúltimos todos
Não foram grandes nem deram certo...
Depois, o final trágico e inevitável.
Esse nem o oráculo precisava dizer
Mas... espere! Essa consulta não era pra mim?
Bolas. Vou seguir o conselho da mãe de santo e fazer o que sempre fiz na vida: aguardar pacientemente a minha vez...
Talvez eu ainda cruze, surpreendentemente, com o sagrado
Na fria burocracia de uma fila...

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

O outro

Antes eu corria atrás do outro...
Ansiava pelo bem que a 'relação' me traria
Pela sua revolução
Até acabar, sempre,
Tudo em desilusão...
Hoje não procuro mais nada
Nem mais ninguém.
Só me restou eu mesmo
E, confesso,
Somente isso já é bem difícil de aguentar...
Tenho todos os livros, todos os filmes, toda música e toda a arte
Todo o universo do qual sou parte
E não necessito mendigar a mais ninguém um pingo de atenção...
As coisas ficam assim, então
Iludam-se os outros com seu afeto de curta duração
A mim me basta eu mesmo
E minha amada solidão...

sábado, 5 de janeiro de 2019

Solidão

A solidão é um verme
Que me corrói a carne
E me dói enquanto perpassa
E me causa a improvável certeza
Nesse mundo anestesiado
De que, apesar de tudo,
Ainda estou vivo.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Qual é a direção?

Nau desgovernada
Qual é a direção
Da tua depressão?
É certo que, na Morte, pensas
Teu mapa, teu plano de fuga
De uma vida em que só foi
Possível fugir
Talvez a algum sonho narcótico
Queiras ir
Pois o bom do estranho opio
É esquecer o porvir
Navega, então, nau inconsequente
A tingir teus queridos livros
Em tuas estantes.
Navega no teu próprio sangue.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Essa química...

Essa química, qual é a dose?
Que te põe de pé,
Que te faz sorrir
Que te lembra quem és
Que te faz dormir?
Essa química, qual é a dose?
Que te deixa atento
Que te dá alento
Que te faz, quase sempre
Um tanto lento...
Essa química, qual é a dose?
Que te deixa perdido, teleguiado
Quem sabe um pouco ferido?
Essa química, que cria as doses
Pra que o mundo louco lucre
Com a loucura que ele mesmo imprime...
Essa química, me errou na dose.
E aqui eu fico, adicto,
Trêmulo, em noites escuras
Cada vez mais distante da cura,
Doente,
Iludido com a falsa promessa
De não virar (o que já sou?)
Um refém
Demente.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

TOC

Eu quero organizar
Com essas coisas, assim, Simetricamente justapostas
Toda a ordem da vida que me falta
Todo o caos, que de fora me devora...
Obsessiva e compulsivamente, Meticulosamente
Transtorno todos os meus livros, meus discos, e muito mais
As coisas de que não me livro...
Os meus poucos pertences, decadentes
Que a ninguém tristemente pertenço...
Indexando os meus muitos remédios
E tédios
Pondo algum método em minha loucura
Uma luz, nessa trilha escura
Planejando, cuidadosamente, (Tal qual um crime)
Meus atribulados dias
(Que ironia!)
Minhas manhãs inúteis, Minhas noites insones e Minhas tardes vazias...
Prendam me se forem capazes
Ou simplesmente, me joguem as chaves
Desses muros e grades
Os quais com esmero, metodicamente,
Eu mesmo ergui
A minha própria prisão..

Anônimo

Numa tarde qualquer
Ele morreu num lugar esquecido
Anônimo...
Nem o seu abundante sangue
A lavar a cena fúnebre
Esboçou qualquer assinatura.
Então, já era noite escura
E pendia, ao seu lado, sua navalha...
A vida não vale nada
Ou qualquer coisa que o valha...
Chega de sofrer.
O que eu simplesmente preciso
É de um afiado bisturi,
Dois cortes, precisos,
E um definitivo ponto final...
Vida, franca e honestamente
Nós fracassamos, Rotundamente...
Não coloques tantos senoes na minha tragédia.
Pois se choras pelo sangue que me jorra, não te espanta
A Morte, mais afeita a esses dramas
Friamente o estanca.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Ninguém é uma ilha?

De tudo o que me restou
Me deixem só
Com meu silêncio
Dele não abro mão...
Ele é tudo o que sou
(O pouco que ainda sou)
Tudo o que vive e morre
Nessa cela escura em que vegeto
Sob o passar impiedoso do tempo.
Eu poderia tentar falar,
Ou, quem sabe, sorrir
Uma vez mais?
Não.
Passar de novo pelo escrutínio do "outro"?
Engraçadas são as pessoas
Quando te conhecem:
Vão descobrindo logo tuas fraquezas, teus defeitos
E fazem delas uma vergasta
Com a qual, no momento mais imprevisto e oportuno,
Te açoitam sem a menor piedade.
Chega. Estou farto de ser amado do avesso.
Esse desconcerto que trago no peito,
Minhas esquisitices de há tanto
Que já trato por normais...
Não. Não mais.
Não me sentirei outra vez culpado
Pelo que sou.
Deixo perdidos para sempre
Aquele olhar azul, esperançoso...
Aquele sorriso, querendo despontar, que ainda trago comigo
(Embora escondido)
Pisoteados pelos porcos, caidos na lama,
Junto às pérolas que algum desavisado ao chão jogou...
Desisto.
Por essas todas me guardo, me calo
Me quedo só, com meu silêncio
Ele que é tudo que sou
(O pouco que ainda sou).
Uma ilha esquecida
Cercada de dor e de nada, por todos os lados
Mas, por isso mesmo, preservada dos invasores,
Dos falsos, dos chacais,
Privada dos falsos amores...